Quando ouvia sua
própria voz não gostava
muito, nem do timbre
nem do jeito de falar
mesmo
Juventude já tinha ido
nem tanto assim, mas
já era para ter outro
som, mais encorpado
mais presença.
Tinha lido sobre,
estudado alternativas
talvez uma fono, ou
vídeos youtub de um
melhor posicionamento.
Sentia um mal estar
ao telefone. Muitas vezes
aos outros parecia tratar
com criança. E toda sorte
e brincadeira que não ria.
Na sua família ninguém
havia sido marcado com
esta forma mais aguda,
mais infantil, menos
agradável de se ouvir.
Seria vingança de outras
eras, ou alguma doença?
Mas era tão saudável, exames
em ordem… Mas quando falava
muitos acabavam por rir.
Fazer cursos, contratar
profissionais, fazer tudo
junto e mais gargarejos,
exercícios, barulhos com
a boca. Será que conserta?
No escritório era uma
encrenca sempre que
tinha reunião ou quando
era para apresentar resutados
lá na frente de estranhos.
Convívio difícil e faz tempo
tudo um dia aborrece mais do
que devia e decidiu que bastava
que era o momento da virada
e de subir realmente o tom.
Seria em segredo, as aulas
o tratamento, os exercícios
e ao final, uma belíssima
exposição oral, com desenvoltura,
e piruetas semitonais
Mostraria a todos, sem
faltar unzinho como transformara
sons esganiçados em suaves,
aveludados, quentes e até
sensuais variações da sua voz.







