Aqui não se trata das linhas curvas e
malemolentes do grande mestre,
reconhecido por concretamente
gingar com seu gênio criador.
O objetivo é outro tão concreto quanto.
Também não se trata da geometria
das telas dos cubistas, fenomenais em
sua forma de angulosamente espetar
os olhos, atingindo, sem dor, o coração
em lindos tons de carmim.

Distante também das figuras
marmóreas, soberbas que desafiam
o vínculo entre o imaginado e o real
conversando, como em Pigmaleão
certeza de que tinha vida.

A concretude é outra por aqui:
é do perder muito e ganhar nem tanto;
é do encarar um final que tem pouco
de happy mas nem por isso inexiste;
o tudo que é do jeito que é.
Sem sabores amargos, por favor:
a conversa não é com as vítimas
chorosas em seus lamentos que
não tem fim para que a prisão
não se abra e se inicie outro passo.
Sem cheiros de pólvora ou de
enxofre, nada metafísico neste
instante que é absolutamente
concreto e fugaz e é assim que
foi e assim que será. Tudo dito.
É o concreto do cotidiano,
do tédio que espreita quando
a distração dá uma trégua para
que ele emudeça o sorrisinho
de talco. Denso, pesado, real.

Nesta modorrenta rotina,
desgaste é tão real quanto todo
o resto; o que resta é pergunta
de milhões, sem prêmio, sem
vantagens: pegar ou sumir!

