Fique tranquilo, ao final não vai dar certo mesmo

tranquilo

Fique tranquilo

ao final não vai

dar certo mesmo

afinal o que foi

feito para isso?

Desorientação

sem saber para

onde vai ou vem

sem saber o que

fazer nem quando

Pensar a longo

prazo, como faz?

perturbação

estado de tensão

sem sertão ou vereda

Milhares de coisas

encantados com o

poder de fazer muito

que nem serve para

muito, possuído pelo ter

Prometeu libertado?

idolatrando o que

vai acontecer sem

interferência, crentes

num caos generoso

Nada precisa ser feito:

de um jeito ou de outro

vai dar certo e indolente

e errante, nunca se começa

o que deveria.. lei particular

Então é certo ou quase

ou há muita chance

de não dar certo

de não atingir

de não chegar.. Há muita

O não fazer conduz ao

não acontecer na melhor

forma, no melhor modo,

ao desdém do pensar

profundo no lance do Gerson

Um juízo final que redime

os que esperam parados

indo ao encontro da pouca

dos que não têm obras,

ausentes, sempre sem razão.

Fica tranquilo, alguém

tem que fazer algo

o outro, a outra, o de fora

tragédia trivial onde

não se mete a mão

Fica tranquilo

não vai dar certo mesmo

ao final  o que foi

feito para isso?

Nada, não é?

 

 

 

Dever é não poder… faz como mesmo?

dever

Dever é não poder

quitar, pagar, fechar

e se livrar do incômodo

do estresse, do aperto,

como faz?

Muitos, muitos, muitos

devem a outros tantos

que também, claro,

sofrem com o aperto

o estresse e o medo.

Medo de não receber,

medo de não pagar,

medo do vizinho saber,

medo do chefe cobrar,

medo de resolver.

Abrir mão, escolher,

encolher, cortar,

adiar, não fazer,

não comprar  e?

não ter!

Carga pesada de

carregar oculta,

arquear sem bufar,

sofrer sem contar,

sorrir sem poder.

Sonhar, fugir,

esquecer, fingir

largar de mão,

não pensar e

d.e.s.i.s.t.i.r

 

Um terço de nós é devedor… que tal

 

 

Valetudo sempre em rota de colisão

valetudo

Valetudo

puxada de tapete,

pisão no pé,

dedo no olho

sal no café

Briga comprada

com pagamento

antecipado, sem

boleto, na boca

do caixa, pimba!

Partiu para cima

sem dó nem piedade:

nada disso cabia.

Era colisão mesmo

e que voem os pedaços.

Era assim e pronto

as demais que desviem

ou que topem a pancada

por aqui? nada a fazer

só encarar

As outras se afastam

tomam distância mas

não muita pois o centro

é quem manda e não

dá para dele fugir

Visão nada clara

muito espalhado

pouca luz e que cada

uma se convença da

sina que lhe cabe

Valetudo se mantém

que desistir nem sabe

não tá ali para isso

a missão é outra

ainda que não saiba

Dentre muitas

dentre tantas que

se comportam

bacaninha, tinha

que ter a desgarrada

Segue o rumo

segue o projeto

o destino ou a

missão. Valetudo

sempre em rota de colisão

Jupter e suas luas que não se entendem

 

Grilhão uma estória sem ter fim

grilhão

Grilhão, prisão, corrente

chibata, feitor, capitão-d-mato

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Suor, ferida, quelóides

humilhação, sofrimento

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Ventre inchado

filho de quem?

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Escritura, alforria

liberdade, o que é?

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Preto, tiziu, besta

trabalho que não pensa

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Fuga, mato, espinho

quilombo, facão

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Capoeira, cantoria

pés rachados, poeira

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Serve café, faz bolo

e tapioca, amamenta

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Planta cana, café

rasga a palma da mão

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Dormir de olho aberto

vigia, espreita, medo

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Tempo que não passa

não exime, não alivia

Dor, tronco, estalo

choro que secou

Grilhão que não se abre

estória que não termina

Dor, tronco, estalo

choro que secou

 

Grilhões em quadrinhos

Ficção já cansou. Só o real tem lugar

Ficção? Heróis, castelos

Bichos enormes ou diminutos;

armas e escudos; caminhos

escuros, deuses de toda

a cor. Quem se importa?

Estórias mirabolantes?

Ninguém mais dá pelota.

Afinal o que se quer é o

que acontece hoje, ontem

e amanhã.

Precisa ser falado sempre

e a todo momento: o que se

faz, como se faz, quando se

faz, com quem se faz. Precisa

ser dito, em foto e em vídeo.

Precisa se falar da família,

dos amigos e dos pets. Narrar

com eloquencia o que permite

fruição e o que engasga.

Distribuir o internalizado.

A ficção cansou a todos ;

não dá conta do que interessa

num instante, mesmo que não

se saiba quanto dura nem como 

se preenche. E enche…e transborda

Os pronomes possessivos

se tornaram os personagens

principais. Os demais, que a outros

remetem, foram caindo no

ranquing dos boots, sem leads.

As capas e espadas são as

de grife contemporânea e torcer

as luvas nem há o que se comentar.

Em voga, na pauta, a combinação

policromática do prato do dia.

Precisão de destampar,

de ser fiel ao que se vive

ou ao que se imagina viver.

Comentar, trazer a opinião,

digitada com o corretor.

Lançar um webniário

complementado por e-book

sem sereias, sem moinhos,

sem olhos marejados da Dorotéia;

apenas o que compraz e conecta.

Podem dormir nas colinas,

nos castelos mais altos, as princesas

e os dragões. Durmam as bruxas e

porções mágicas. Descansem os

monstros de um só olho: hoje só o real

 

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