Riso, quanto tempo faz que você não dá uma gargalhada?

risada

Cara sisuda, ombros

para baixo, semblante

de trovoada iminente

boca arqueada sem

chance de entreabrir

Olhar fixo no nada

ou no tudo de dentro

que a todo momento

pipoca de um canto

para outro sem comando

Passam os dias sem

nota de destaque, só

um peso, uma sensação

de que está à espera

de ataque e revide

Risada? ih faz tempo

faz tempo mesmo que

não vê motivo para

chacoalhar a barriga

e perder o ar…caramba!

No tempo de mocidade

que nem passou tanto assim

ria fácil, quase de tudo. Das

situações mais simples àquelas

em que rir nem cabia.Vergonha.

Todo mundo ria, tá lembrando

a roda de amizade, o povo da padaria,

na banca do Sr. Giuseppe… todo

mundo encontrava uma motivo

tosco para rir junto e muito

Gente nova e gente mais

idosa, nesta mistura que

rolava a solto, ficar mais de

meia hora sem todo mundo

explodir e gargalhar era raro.

Ficou lá em algum canto

de um tempo soterrado

por rotinas e notícias e

relatórios e mensagens e

tudo para fazer para ontem.

Como faz para reencontrar

a bobeira santa que redime,

que salva, que vai limpando

veias e artérias, permitindo

ao riso desinfetar a apatia.

 

O vazio no diálogo cria o espaço para violência

diálogo

Quando já não cabe

a conversa, o entendimento

quando há o esforço vão

de ser compreendido

e de ouvir. Mas é só eco.

Onde foram parar os iguais?

Os nossos, àqueles com os

quais podíamos, deveríamos

ou fora certo que com eles

era possível estar junto?

O olhar só enxerga os outros.

Os desiguais, os de fora

dos muros, os que olhamos

e não nos vemos em seus

traços. Estes são muitos…

E aos diferentes

o melhor é o vestuário

de inimigos. Aos inimigos,

à força, o peso da lei

Sempre se ouviu dizer…

Mas ainda há uma comunidade?

um conjunto daqueles com quem

se tem um quê de pertencimento?

Procura incessante para a via

do diálogo, organicamente, preferencial.

Acabou… foi se rompendo

esta cadeia da semelhança,

do reconhecimento. Foi dando

lugar ao indivíduo, ao singelo, ao

isolado em si.

A quem mais pertence este eu?

a quem interessa o que se passa

em seus mundos paralelos, superpostos

em flandres, poças de lama, mofo e 

lavanda, a quem mais interessa?

Em grandes ondas de wi-fi

surfando no tubo do seu próprio

ser, não vê ao seu redor, nem

mar, nem útero, nem espuma.

Quebra na arrebentação, alone…

Para preencher o espaço

vago da palavra que não chega,

do ouvir que não se dá, do contato

que não vinga, se corta na espada

afiada e também vai mutilando os seus.

Diálogo que não encontra

meio de se fazer entender

cava, cria, procria o buraco

violento do ser que nem

mais se sabe quem é

 

Um exibido só seu!

exibido

Sabe tudo, o exibido

Conhece dos assuntos

e opina sem se avexar.

Vai de um tema pra outro

em céu, sem tormenta.

Conhece a Europa

sabe de vinhos, de carnes,

sabe de cafés e cremes;

conhece também os

mais finos doces.

De moda, também

sabe: dos diferentes

looks numa pegada

étnica ou boho ou dos

saltos do Christian Louboutin

Saltos, esgrima, badminton

praticou cada um, saca bem

das regras e manhas para

se dar bem. Maratonas na

Argentina e USA? também.

Poesia e prosa, claro

que é fera! Cita autores

livros, trechos de cor

sem saltear, indo do

Guimarães ao MC da vez.

Música então é

covardia do tanto que

conhece: rondó veneziano,

allegro e minuetos fazem

parte da ópera diária.

Tipo que estufa o

peito, exibindo o externo

proeminente que só.

Ombros para trás e

escápulas unidas.

Talvez encontre

em alguma esquina

um parente, um igual

que lhe faça graça ou

raiva. Por aqui, encheu!

As rodas já se abrem

com sua chegada e, aos

poucos, todos vão saindo.

Os conhecidos não

aguentam mais o pavoneio.

De monólogo e causos

contados em minúcias,

o exibido vai falando,

sem se dar conta que

paredes não conversam.

Talvez lhe agrade e

lhe faça sair do palco

e das luzes uma cutucada

um pisão no pé, um caô

bem mandado na lata.

Diz aí, agora e sem

muito enrolar que o

papo é reto. Responde

sem gaguejar

Qual é a cor da neve?

 

Neve branquinha? SQN

Verdade, nem me diga

Combinemos assim

verdade daquela

que anda sem roupas

e que nem civilizada é

não me frequenta.

Abro mão, passo a vez

para que dela preciso,

se quando chega só

causa balbúrdia e

ressentimentos?

Fiquemos na calma

do convívio blasé e

begezinho que com

tudo combina e

descarta o risco.

Verdade medonha

tão cheia de si que

nem dá espaços para

uma tangente, uma

tomada de curva.

Pelo espelho não se

vê a dita cuja. Faz muito

que a linha entre a rainha

e sua rival mudou de forma

e já virou espiral.

Anseios de muitos

para que a última forma

seja a inequívoca, àquela

que não há ousadia que

se levanta para o combate

E pode ser uma tolice das grandes:

Pode nunca ter existido a tal…

e todos ficamos com cara de

babaquara, com um olho só sem

encontrar e sem rei virmos a ser.

Crianças já sabe que não vale

para sempre a melindrosa;

vale para agora e já não vale

mais daqui a pouco, pois correndo

no pique pega ninguém a segurou.

Combinemos assim, me faça caso

e mantenha pra longe o cálice desta

embriaguez. Onde está e de quem é

nunca se sabe; mas muito se briga

e tudo isso dá muito…. s.o.n.o

Para ficarmos amigos de

balada, de cafezinho e de net

ou mesmo “a vera” não me

exija jurar por ela que também

por ela não te prometo nada mais.

 

Folgado, você ainda vai encontrar o seu

Folgado;

ocupando um

espaço maior

do que o seu,

invade o do outro.

Se justo fosse

estaria em mau

pedaço, mas

justiça não combina

com o termo.

Invasão consumada

estreito ficou o

outro, que por

folgado não ser,

lhe restou só a beirada.

E em tantos outros

foi consumando o

aperto para folgar

ainda mais sem

contar como fazia.

Lábia fina e jeito

manso, estratégia

de manteiga, escorrega

pelas bordas, derramando

seus desmandos.

De aperto em aperto

de espaço em espaço

vai tomando fama e

gozo, se alargando

na vitimização de outros.

Folga em sabê-lo.

De verdade, se alegra

e quem de fato não há

de se alegrar com

vantagens e conforto?

Aborrecidos, calados

os que tomaram o aperto

repetem muxoxos em

roucas vozes sem tom

e sem tônus.

Dá risada com total

domínio da circunferência

ampla ao seu redor e

não se cansa das folgas

que tira a cada tanto.

Conheces o tipo faceiro

que anda garboso aí ao lado?

tome tento, fique alerta:

pode ser você a próxima

vítima deste danado.

Redobre a cautela

para depois não se arrepender

do espaço que foi deixando sem

saber. Mais uma oportunidade para

o folgado cravar outra conquista.

 

 

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